foto: google imagemCurando a vergonha que impede de viver. ‘Com um título desses, vergonha é passar no caixa da livraria’, foi o que pensei ao comprar o livro de John Bradshaw.
E não é que o livro fora escrito por um psicólogo, teólogo, filósofo e antropólogo? E não é que todas as suas explicações são fundamentadas na gestalt, na psicologia sistemica e na psicanálise?
Senti vergonha por ter julgado o livro pela capa, ou melhor, pelo título.
Entre outras coisas, Bradshaw explica que a vergonha é o sentimento que nos torna humanos, pois ao sentirmos vergonha nos damos conta de que somos imperfeitos e por isso não somos Deus.
Porém, segundo ele, existem dois tipos de vergonha. A vergonha saudável, que nos ajuda a perceber certos erros para que possamos corrigi-los e assim até preservar a nossa vida em alguns casos, e a vergonha tóxica.
O autor explica em 347 páginas que vivemos numa cultura perversa e perfeccionista que nos leva constantemente ao desapontamento e por conseqüência à vergonha tóxica:
“Nossas famílias, religiões, escolas e cultura estão baseadas em sistemas perfeccionistas e o perfeccionismo é a principal causa da vergonha tóxica. O perfeccionismo nos prepara para sermos avaliados, o que por sua vez nos prepara para um perpétuo desapontamento” p. 339
E é exatamente para banir o desapontamento que, ainda na infância, o nosso ego se fragmenta e cria disfarces que são usados na vida adulta como a busca pelo poder e controle, raiva, arrogância, crítica e culpa, inclinação para julgar e moralizar, desprezo, tomar conta de alguém, inveja, satisfazer aos outros, comportamentos compulsivos viciadores, etc.
No entanto, quanto mais nos escondemos sob esses disfarces mais no tornamos uma “criança adulta”, ou seja, um adulto que nunca consegue satisfazer suas necessidades primordiais.
“Os adultos fazem com que o que obtêm seja suficiente e se esforçam para conseguir mais na vez seguinte. A criança adulta não consegue obter o suficiente porque o que está em jogo, na verdade, são as necessidades da criança”, p. 50
Mas para Bradshaw o que mais alimenta a vergonha tóxica numa criança [ com reflexos na vida adulta] é o abandono. Não necessariamente o abandono literal, mas o abandono de suas necessidades primevas, sendo estas: “privação de carinho, privação narcisista [espelhamento], vinculação a fantasias, negligência das necessidades de dependência e desenvolvimento e enredamento do sistema familar”, p. 70
A vergonha tóxica geralmente é passada de pai-para-filho, uma espécie de hereditariedade, segundo Bradshaw, pois uma pessoa com base de vergonha e baixa auto-estima transmitirá sem perceber seus horrores à criança.
O autor cita muitos filósofos, poetas, escritores renomados e psicólogos no decorrer do livro, porém sua narrativa é simples e muitas vezes se desenrola na exemplificação de seus casos clínicos.
Ex-viciado em álcool, John Bradshaw trata com freqüência sobre os vícios, especialmente o alcoolismo, e acredita que todos eles são fruto da vergonha tóxica gerada pelo abandono.
Tudo muito interessante até a parte II, quando o capítulo “A solução” se apresenta. É a partir deste capítulo que o título
Curando a vergonha que impede de viver se torna o que parecia predestinado a ser: auto-ajuda. Ou, quase auto-ajuda. Digo quase porque 90% dos exercícios propostos são fundamentados na gestalt terapia, porém é difícil de engolir páginas e páginas com “feche os olhos, respire, imagine que está diante de sua criança interior”...
Vale a leitura! É catarse na certa! Certamente você vai descobrir um tantão de vergonha tóxica dentro de si. Eu descobri e chorei um bocado. Por fim, acabou sendo “auto-ajuda”, mas, se até a Arte pode ser considerada auto-ajuda - se levarmos em consideração que ela salva os que criam e os que a contemplam – por que um livro não poderia exercer tal função?
By Mônica Montone
Curando a vergonha que impede de viverJohn Bradshaw
Ed. Rosa dos Tempos
347 páginas
Preço R$48,00
Abaixo, alguns fragmentos do livro:
“Sentir vergonha significa ser visto de uma maneira exposta e inferiorizada”.
“Talvez o aspecto mais profundo e devastador da vergonha neurótica seja a rejeição do eu pelo eu”.
“Não podemos curar o que não conseguimos sentir”
“Inteligência é aquilo que fazemos quando não sabemos o que fazer” [John Holt]
“Qualquer preocupação mental pode nos distrais dos nossos sentimentos”
“Aprendemos o perfeccionismo quando somos valorizados pelo o que fazemos e não pelo o que somos”.
“Ou nos tornamos miseráveis ou nos tornamos fortes. A quantidade de trabalho é a mesma” [Castaneda]
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by Mônica Montone