sábado, 30 de agosto de 2008

:: Balada do ser errante ::




foto: bernardo coelho


Depois de um tempo você descobre que sua vida não passa de uma farsa
Que tudo o que você fez ou faça
É tão somente para ser bem visto e bem quisto pelos outros

Descobre que sua necessidade de trabalhar 20h por dia
Nada mais é do que um pretexto para se esquivar da agonia
Da terrível e temível sensação
De não ser aceito
Não ser perfeito

Descobre que até as roupas que USA
São escolhidas por você como um passaporte
Um cartão de ouro
Capaz de abrir as portas do matadouro social

Descobre que alguns amigos estão ao seu lado
Não por admiração ou carinho
Mas porque você se esforça para ser especial
E porque eles podem lucrar algo isso
Nem que seja um telefonema no natal
Ou um cartão postal de viagens invejadas

Descobre que algumas pessoas próximas não te conhecem
E não tem a menor idéia de quem você seja
Mas que no fundo elas não têm culpa disso
Pois foi você quem sempre fingiu ser o que não era

Depois de um tempo
Você descobre que nada disso faz sentido
Mas como está distante de tudo o que realmente é importante
Já não consegue voltar atrás!

E passa a viver seus dias como um ser errante
A espera de um "milagre":
Casamento, parceiro, dinheiro, emprego, filhos, felicidade

E enquanto a cidade se agita
Sozinho no ninho
Você grita
E sente as dores de um parto que jamais aconteceu:
O seu!!!


by Mônica Montone





... Estou tentando apagar o rastro das minhas mentiras mas às vezes desconfio que elas são as únicas verdades que possuo, que são as únicas pistas que tenho sobre mim mesma e que somente minhas mentiras me dão a noção exata de que sou feita de sal....

u.p.d.a.t.e: Quero dizer que esse poema é, antes de tudo, um hino à liberdade. Pelo menos é assim que o sinto! Creio que somente depois de uma angustia tamanha como esta é possível se auto-parir. Além disso, quando percebemos os erros, as fraquezas, as falsidades, temos a opção, a oportunidade de mudar tudo. Temos a chance de nascer, temos a oportunidade de escolher!!!Eu escolhi nascer e deixar para trás tudo o que não servia. Acho que enxergar, deixar de idealizar, perceber-se e perceber o outro é sinônimo de não esperar nada de ninguém e não esperar é, antes de mais nada, sentir-se livre. OK, SEI QUE POEMAS NÃO SE EXPLICAM, mas não resisti após ler alguns comentários. Obrigada a todos pelo pouso

@@@ C.o.n.v.i.t.i.n.h.o para quem pratica a gentileza e vê beleza em tudo o que vê, aqui

@@@ Algumas pessoas ainda estão me escrevendo perguntando onde encontrar a crônica Filho é para quem pode, publicada na Revista O Globo. Para ler basta clicar, aqui. Para ler a entrevista com a psicanalista Corinne Mayer, autora do livro Sem Filhos, basta clicar, aqui

*

Quero agradecer com o perfume de mil lírios às queridas Adriana [vermelho pitanga], Julia [diálogos a sós], Edna [pensamento nosso] e Jeniffer [subindo no telhado] por ter premiado o canteiro Fina Flor com os selinhos abaixo. Demorei, mas não esqueci! Obrigada, meninas!!!





by Mônica Montone

terça-feira, 26 de agosto de 2008

:: Vento no litoral da memória ::

foto: edward holub


Uma, duas três. Convidei três pessoas, nenhuma podia. Fui sozinha. O que certas mulheres enxergam como pesadelo eu percebo como ousadia, seda nobre beijando o bico dos seios.

Assim que cheguei ela veio a mim. Com os mesmos óculos fundos de garrafa, a mesma pele cheia de espinhas e o mesmo violão desafinado em punho. Atrás dela, Hugo Galo, com sua eterna camiseta de banda de rock e voz desafinada. Ele nunca soube que seu apelido era Hugo Galo, nem que seu topete era maior que seu potencial, coisas da adolescência.

E vieram um, dois, três, quatro, amigos. E sorriram para mim um , dois, três amores. E de repente eu não estava mais sozinha. Não estava mais sozinha porque solidão é ausência de si mesmo e ali, revendo meu passado, estive mais presente em mim do que nunca.

Foi por isso que explodi em lágrimas quando as luzes do palco do teatro João Caetano acenderam e Renato Russo começou a cantar. Era ele, eu estava certa disso! Era ele no jeito de andar, era ele no jeito de dançar, de falar, de rezar, de não entender as coisas que ninguém entende.

Bruce Gomlevsky, o ator, pode até não sustentar todas as notas em algumas canções, mas o seu trabalho é tão exato, sem faltas ou sobras, que é impossível não aplaudi-lo em pé.

Você não precisa ser fã de carteirinha do Renato Russo para gostar da peça. Eu não sou, apesar de saber cantar quase todas as suas músicas. Você precisa apenas de duas coisas: gostar de teatro e ter boas recordações do seu passado.

Gostar de teatro porque a montagem é de um fino trato inquestionável. Da dramaturgia à iluminação. Dos objetos cênicos à direção e marcação de palco. Da banda à projeção de imagens - aliás, pela primeira vez vejo o recurso audiovisual sendo usado no teatro brasileiro de maneira bem sucedida. As imagens não agridem a atuação do ator, pelo contrário, elas perfumam as cenas! A impressão que se tem é que elas são fragmentos do inconsciente do personagem, o que resulta numa estética onírica belíssima.

Ter boas recordações do passado porque é impossível ouvir a banda Arte Profana tocando - muito bem, diga-se de passagem! - Será, Índios, Eduardo e Mônica, Eu sei e Vento no Litoral e não se lembrar da adolescência, de um tempo onde tudo parecia possível.

O risco de parecer didático ou cafona ao fazer um musical sobre um ícone Pop é sempre grande, mas a dramaturgia de Daniela Pereira de Carvalho e a direção de Mauro Mendonça Filho, premiada com o Prêmio Shell 2007 de melhor direção, não permitiram que isso acontecesse com Renato Russo, o musical.

Música e biografia parecem tão indissolúveis na montagem que aos poucos você esquece que está num musical e apenas se apaixona pela história de um poeta que tinha muito a dizer e que usou a música para se defender do que não podia conter.

Uma história que não nos deixa escapar das perguntas quando termina: você está onde queria estar há 15 anos atrás? Que país [continua sendo] é esse?

Um vento no litoral de nossa memória. Vale a pena conferir.


Renato Russo
Local: Teatro João Caetano
Endereço: Praça Tiradentes s/n, Centro
Sex e Sab 19:30h
Dom 18:30h
Ingresso: R$20/ meia R$10

Informações, aqui


para relembrar






@@@ Aos que assistiram minha entrevista no Sem Censura, meu muito obrigada! Quem perdeu, pode assistir o Fantástico no próximo domingo e conferir essa mocinha que vos escreve numa entrevista para a Renata Ceribelli. Beijo em cada ave rara que por aqui passa!!

by Mônica Montone

quarta-feira, 20 de agosto de 2008

:: Brinco azul ::

foto: tuta



O medo é um brinco azul que caiu por descuido das orelhas do amor. Sozinho não é nada, deixa de ser enfeite, alfinete, pérola ou pus. Perdido do amor, não tem serventia, é só mais um pedaço de não sei o quê no chão das horas. Não tem valia, língua ou pátria.

Por isso todo medo implora por um amor, uma orelha para poder pendurar o fio invisível da dor e da dúvida.

Sente medo quem não quer perder a admiração de alguém. Sente medo quem não pode perder o emprego. Sente medo quem não conhece a própria força. Sente medo quem finge ser o que não é. Sente medo quem precisa desesperadamente de amor.

Não o amor das carnes, o amor do meio-dia. Mas o amor pelo que se é. O amor que aceita, conforta, o amor que é usina e ninho. O amor que dá sentido as cousas e que ao invés de despir oferta a melhor das roupas: a nossa própria pele.

É quando estamos nus de nossas vaidades e vontades que os medos se transformam no que realmente são: pequenos brincos perdidos no chão.

*

Escrevi o texto acima pensando nas meninas da ginástica artística que estiveram nas Olimpíadas após perceber que o máximo delas não era suficientemente bom para os seus treinadores que gritavam com elas na frente das câmeras, ou seja, do mundo inteiro. Se elas chegaram até ali foi porque abriram mão de suas vaidades, verdades e vontades. Foi porque abandonaram pequenezas como brincos azuis de medo. Parabéns, meninas!

@

Ainda sobre as Olimpíadas... Vocês não sabem, mas já fui jogadora de vôlei na adolescência. Jogava por um clube de Campinas. Competia. Era atacante. Amo vôlei e estou super feliz com o resultado das nossas equipes. Detalhe: a maluca fica acordada até altas horas da madrugada assistindo aos jogos, não vejo a hora que isso acabe e que as medalhes sejam distribuídas, pois trabalhar no dia seguinte tá difícil, rs*

C.o.n.v.i.t.e.s

5a. feira, 21/08, estarei no programa Sem Censura, da jornalista Leda Nagle, falando sobre o tema da minha crônica Filho é para quem pode. Quem quiser assistir, será ás 16h na TVE Brasil. O programa será reprisado às 00:10h.

Show Os Sábados do Domingos, um cabaré filosófico, sábado, às 21h, no Canequinho Café [anexo do Canecão]. Apareça, afinal não é todo dia que canto e danço É o tchan por aí....



by Mônica Montone

segunda-feira, 11 de agosto de 2008

:: Como é bom não ser mais adolescente ::

foto: bernardo coelho


Como é bom parir o abandono. Abandonar o medo de não acertar é quase tão divino quanto o parto de cavalos-marinhos no mar.

É maravilhoso não precisar gritar para ter razão e não se sentir ansioso ante o silêncio. É quase tão perfumado quanto um suspiro recém saído do forno a descoberta de que é no silêncio que o amor se consuma e o desejo se perpetua.

É muito aconchegante a sensação de que no mundo dos adultos “não” é “não” e “sim” é “sim”, e é quase tão gostoso quanto se lambuzar num algodão-doce não se sentir perseguido, julgado, criticado e agredido o tempo todo.

Nem andar descalço, nem tomar água gelada no calor, tampouco comer brigadeiro na colher de pau debaixo do cobertor ou beijar quem se quer pela primeira vez ... Nada disso é melhor do que as asas que ganhamos quando abandonamos a necessidade de controlar o outro e sempre ganhar o jogo.

Não precisar de atenção o tempo todo para se sentir querido, nem exigir provas de fogo para se sentir amado. Como é bom deixar que o outro nos ame do jeito que ele quer, consegue e pode e não do jeito que imaginamos ser o amor.

Como é bom não esperar nada das pessoas. É quase tão divertido quanto comer maria-mole com o dente banguela ou guardar tatu-bola em caixinhas de fósforo nas horas da infância.

Como é bom perceber um erro e pedir desculpas por ele.

Como é bom não querer provar nada pra ninguém.

E como é leve abandonar falhas e faltas! Na adolescência pensamentos obsessivamente nelas e somente nelas.

É bom demais não precisar que alguém nos devolva a imagem que esperamos ter para nos sentirmos quem pensamos que somos. E é melhor ainda descobrir que do outro lado da linha, do espelho, da vidraça e da lágrima está o nosso melhor amigo.

É praticamente um delírio de pandeló não culpar mais pai, mãe, irmão, tio, papagaio, vizinho, avô, namorado ou avó pelos nossos pesadelos, afinal, achar que eles são responsáveis por nossas noites mal dormidas seria dormir mal para o resto da vida, pois os outros estão mais preocupados em salvar a própria pele de dilúvios possíveis do que com nossas birras.

Sim, existe algo melhor que sexo, chocolate e champanhe: não ficar com pessoas erradas somente para sentir que é digno de desejo ou admiração.

E é tão bom não se reduzir a última das mortais só porque um boçal qualquer disse “não”.

Como é bom não ser mais adolescente! Crescer dói, mas vale a pena.


C.o.n.v.i.t.e.s

O primeiro convite é para você que visita o Fina Flor e também tem orkut, clique aqui

O segundo, para quem estiver no Rio no mês de agosto: Sábados do Domingos, um cabaré filosófico, show de Domingos Oliveira que acontece no Canequinho Café [anexo do Canecão] e que tenho a alegria de fazer parte do elenco!! Apareçam para me ver cantar É o tchan. Sim, vocês não leram errado, eu canto É o tchan [entre outras coisas, claro!] no show.


@@@ Obrigada, hoje e sempre pelos pousos e pelo perfume partilhado!
by Mônica Montone

terça-feira, 5 de agosto de 2008

:: Sem filhos ::

foto: armstrong roberts


Escolher não é difícil! Difícil é lidar com as conseqüências de cada escolha, conviver com as perdas e os ganhos. Difícil é aceitar a impotência de não poder prever o próximo rodopio, arrepio ou tropeço.

Tropeça quem esquece de tirar o salto para entrar no coração alheio. Quem aceita o que lhe é ofertado sem nem saber o porquê, quem não gosta de dançar mas mesmo assim estende a mão para uma valsa só para tentar controlar o que o outro deve pensar a seu respeito.

Tropeça quem acha que o diferente é feio.

A psicanalista francesa Corinne Maier, certamente tem feito muita gente tropeçar e cair de boca no próprio umbigo desde que lançou seu livro Sem Filhos – 40 razões para você não ter.

A maneira crua e realista com que Corinne fala sobre a maternidade chega a ser chocante até mesmo para as pessoas que optaram por não ter filhos.

O livro da autora que já é best-seller na França, acaba de chegar às livrarias brasileiras pela editora Intrínseca.

Ao longo das 158 páginas, Maier, que é mãe de dois filhos, dispara sem rodeios: “querer a todo custo se reproduzir é um objetivo formidavelmente banal”; “as alegrias do parto são uma propaganda totalmente enganosa”; “a vida com filhos é uma vida banal”; “criar um filho é uma guerra”; “filho nem sempre acaba com o amor [de um casal], mas muitas vezes acaba com o desejo”; além de chamar os filhos de “correntes aos pés”, “estraga-prazeres”, “peso” e “parasita”.

Mas além de apresentar 40 razões para não ter um filho, a psicanalista fala sobre a opressão que mulheres que optam pela não maternidade sofrem.

“Na França, ser ‘sem-filho’ é uma anomalia. Permanentemente censurados, os que se atrevem a não tê-los causam dó: ‘ A pobrezinha provavelmente não pôde ter’...Se assinasse este livro sem ter filhos, todo mundo acharia se tratar de uma solteirona amarga e invejosa.”

Para Corinne, a opção pela maternidade hoje em dia tem a ver com status, manutenção do que chama de “baby-business” e necessidade de não se sentir excluído.

“Ter um filho é o que há de mais bonito nesse mundo, um sonho ao alcance de todas as bolsas e barrigas. É mostrar para a vizinhança o sucesso do casal, a comprovação da integração social dos pais, num mundo em que o maior dos temores é o de ser ‘excluído’ ”.

Sem Filhos faz rodopiar e em alguns momentos arrepia, mas quem pode julgar se ela está certa ou errada se para cada pessoa existe uma verdade?

Muitos tropeçarão na própria língua oferecendo a palavra “feia” à autora. No dicionário Aurélio, “ Feio: adj. 1. de aspecto desagradável. 2. Indecoroso, vil. 3. Diz-se do tempo mau, chuvoso, etc. SM. 4. Coisa feia.”

Sim, ela fará chover em mentes por onde passam apenas brancas nuvens, disso eu não tenho dúvida e apesar de discordar de diversos trechos de seu livro eu oferto a ela a palavra “linda”, pela coragem e honestidade que exala nas páginas de seu livro.

Sem Filhos – 40 razões para você não ter
Autora: Corinne Maier
Editora: Intrínseca
Páginas: 158



@@@ Após a polêmica gerada pela minha crônica Filho é para quem pode, publicada na Revista O Globo, a editora da revista me convidou para uma entrevista com a Corinne Maier, autora do Sem Filhos, e foi assim que o livro chegou em minhas mãos. Confesso que temi pela segurança de Corinne, pois se minha crônica que apenas sugeria a maternidade consciente e a reflexão de que um filho não é a salvação para todos os problemas gerou tanto desconforto e indignação, imagino o que não vai passar essa dona quando colocar os pés na terra do futebol e do carnaval.

E.N.T.R.E.V.I.S.T.A


> Das 40 razões que você cita para não ter filhos, quais as principais?

Os filhos exigem tanto tempo e energia que impedem que os pais façam um monte de coisas: viajar, viver aventuras, ganhar dinheiro... Ninguém avisa que as mulheres serão prisioneiras dos filhos por 20 anos.

> Por que uma mulher que opta por não ter filhos é considerada suspeita, fraca, medrosa ou doente?

São preconceitos de gente sem imaginação. No século XX, mulheres como Virgínia Woolf e Simone de Beauvoir tiveram vidas interessantes e escolheram não ter filhos. Elas não eram nem fracas, nem medrosas.

> Você admite que às vezes se arrepende de ter tido filhos. Que tipo de reação isso provoca?

Isso choca algumas pessoas. As crianças dão sentido à vida? Tenho dúvidas. Pode ser para uma minoria. A espécie humana estaria na Terra unicamente para se reproduzir? Não é um pouco limitado?

> Alguém já disse que você é péssima filha e péssima mãe...

Me acusam de ser uma mãe ruim por causa desse livro. Tudo bem, isso me faz rir. As boas mães são as que não se questionam? Além do mais, as boas mães existem?


@@@ Aves raras: a temporada de shows do Sol na Boca acabou. A última noite foi linda. Dividir palco com o Leoni foi um sonho. Agora quem quiser me ver em ação terá que ir ao Sábados do Domingos, um cabaré filosófico, no Canequinho [anexo do Canecão] aos sábados. Fotos do último Sol na Boca, aqui.

S.a.u.d.a.de !
by Mônica Montone

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