segunda-feira, 31 de maio de 2010

.Das [re]descobertas .


foto: Mônica Montone by Baby B.



Das coisas que encontrei perdidas no vale das inutilidades, algumas delas me chamaram bastante a atenção e me deram pistas concretas de que apesar dos tropeços, estou exatamente onde deveria estar.

Não, eu, não precisava mais daquela pasta, cheia de provas e trabalhos da faculdade, estampando notas 10, para me sinalizar de que eu era boa em alguma coisa.

Rasguei tudo. E assim enchi o primeiro dos 22 sacos de lixo que joguei fora, ontem.

Há tempos queria mexer no vale das coisas inúteis, aquele, situado no maleiro dos armários e na despensa. Aliás, se algo foi parar na despensa, a própria rima deveria sugerir alguma coisa, não? Deveria sugerir: ‘dispense isso, você nunca mais vai usar’.

Todos os textos da faculdade de Psicologia, bem como os dos cursos de Moda e Teatro, foram rasgados, porém os do curso de Mitologia Grega não consegui me desfazer.

Os cadernos - por puro receio de algum maluco abrir o lixo e ler minhas anotações - rasguei as folhas. Em todos eles, poemas e mais poemas. Cartas e mais cartas.

Das coisas que me fizeram rir: encontrar 15 cartões de flores de um ex-namorado que mandou 15 ramalhetes em casa, num mesmo dia, cada um com um trecho de um poema, sendo o décimo quinto: ‘sempre seu’. Fotos engraçadíssimas, um texto, escrito no meio de uma aula de psicopatologia, aos 19 anos, intitulado ‘as coisas que gosto’, alguns dólares dentro de uma agenda, meu crachá de quando estagie no hospital psiquiátrico Pinel e uma foto com o Ney Matogrosso num ‘dia de tiete’.

Das coisas que me fizeram chorar de comoção: a colher bailarina da casa da minha avó [que eu usava para tomar suco de uva quando pequena e comer brigadeiro]. A foto polaróide, desbotada, da minha turma do colégio. Os primeiros rabiscos e desenhos do querido amigo e hoje artística plástico Flávio Rossi. Os poemas que escrevi aos 13 anos.

Todas estas, claro, permanecem muito bem guardadas, porém em novas caixas e de maneira organizada.

A leitura dos meus antigos cadernos me fez perceber que jamais poderia ser outra coisa que não aquilo que sou: escritora. E essa sensação, de que fizemos a escolha certa, não tem nota 10 alguma que pague.

Já encontrei um apê para chamar de meu. Já limpei os armários. Já estou de malas prontas. Mas o que essa mudança imprevista de casa me deu não foi apenas gavetas vazias a espera de novos adereços e sim um lar: meu peito...

...e a alegria de saber que, como diz o filme, ‘a pessoa é para o que nasce’...



By Mônica Montone



Eis um trechinho do texto que escrevi aos 19 anos, ‘as coisas que gosto’, no caderno de psicopatologia [e continuo gostando!]. Detalhe: eu devia estar amando a aula, não?

‘...Gosto do botão soneca do despertador quando fui dormir às duas da madrugada. De estrada verde, com rios e pontes. Gosto do cheiro do cabelo da minha mãe e de escovar os dentes com pasta de hortelã e depois beber água gelada. Gosto de cheiro de casa limpa, travesseiro macio e de andar descalça. De comer chocolate e me enfiar debaixo das cobertas quando estou triste. Gosto de assistir desenho animado e dançar na frente do espelho...’







para ouvir faixas do meu disco, aqui
para twittar, aqui
para conhecer melhor, aqui



O.b.r.i.g.a.d.a a querida e doce ave rara, Luma, que dia desses fez um post lindo falando sobre meu trabalho.


[ Obrigada a todos vocês, que pousam por aqui e enchem meu dia de carinho]


by Mônica Montone

39 comentários:

Valéria Martins disse...

Querida Mônica, eu guardo algumas coisas, já joguei fora muitas. Guardo uma rosa de prata que ganhei do primeiro menino por quem fui apaixonada, o Antônio. Tem uma plaquinha que diz: "Uma rosa com amor". Ele me deu de presente de aniversário e foi uma emoção enorme.

Uma coisa que me arrependo é de ter rasgado e jogado fora uns cadernos onde anotava minhas experièncias sexuais nos anos loucos. Depois que tive filhos, fiquei com medo que eu morresse e eles encontrassem. Hoje em dia, eles são adolescentes e eu me arrependo. E se eu morresse e eles encontrassem? E daí? Bah!

limafabiana disse...

Ai Mônica, sempre que te leio fico assim, tão TÃO. Inspirada, romântica... leve. E é sempre tão bom...
Além de linda e talentosa, você tem esse astral maravilhoso que a gente sente até pelos espaços entre as palavras que escreve...

Continue sendo essa inspiração.
Beijo!

Dani Amor disse...

Mônica,

É sempre um grande prazer ler os seus escritos, como sempre, você transforma coisas cotidianas em pura arte, poesia, emoção.

Um grande abraço, querida, e uma semana harmoniosa!

Melanie Brown disse...

Mas se desfazer dessas maravilhosas lembranças... Não! Isso nunca será possível... Foi lindo o que li.

Anny disse...

Bom dia, Mônica!
Finalmente pude vir aqui te visitar e agradecer seu comentário e pegar carona num texto tão envolvente e poético.
Você fala de mudanças, de textos que precisaram serem desprezados porque não serviam mais para o seu agora. Lembranças que são guardadas com carinho e música para ilustrar o texto.
Realmente, existem pessoas que são mesmo um presente dos deuses, poder estar em contato com elas. Você e Luma. Obrigada por existirem.
Beijos
Anny.
*Seus livros são leençados em todo o Brasil?

Por que você faz poema? disse...

Eu também já joguei tanta coisa fora, mas o meu passado não para de passar por mim.

Carolina Lauriano disse...

Olá MÔNICA!
Adorei seu texto!!! Guardamos tantas coisas do nosso passado durante tanto tempo, talvez por medo da mudança ou de reconhecer o quanto já não somos mais aquela pessoa de antes. Ser diferente do passado assusta!
Tenho um blog e escrevi um texto que dialoga com o seu , porém, sob um outro ponto de vista.

http://desejoseanseios.blogspot.com/2010_04_01_archive.html

Salve Jorge disse...

Nada como uma faxina
Para ver ao que se destina
Uma flor fina
Que tinha por sina
Desde menina
Ser mais avassaladora que o Katrina
E mais bela que poesia que desatina
Certamente a tônica de mônica cuja crônica
Ressoa por aí...

marcelo disse...

Bem madurinha essa escritora aos 19 aninhos...faculdade da um monte de coisas que nós achamos que precisaremos para toda a vida e nada...não precisamos. Tive um professor Domingos, ensinava HIStoria Geral no cursinho mulçumano e adepto da medicina ortomolecular...na aula ele contava a Historia e ia desenhando o mapa, impedia que abrissemos o modulo ou anotassemos...ao final ele começavaa a recontar a aula com lacunas aos berros e nós gritavamos completando aos berros...aquilo era de um exorcismo imenso, era como se eu limpasse minhas gavetas e até hj lembro das aulas dele sobre história, me ajudam muito em provas e eu aprendi a estudar bem menos pq nós já sabemos...tá lá no perispirito, no destino o que seremos....beijo grande vc sempre inspira desculpe me se escrevi muito!

Andréia disse...

que ótimo fico feliz por vc! nada é melhor do que sentir que está exatamente aonde deveria.

eu queimei muita coisa quanto mudei de casa e não me arrependo.

bjs

Lia Noronha disse...

Mônica: uma repaginada nas lembranças...é sempre saudável...td d ebom no novo lar!!!
Bjus mil!!!

Grã disse...

Post sensacional do começo - e a foto "de bigode" - ao fim com a música adequada e bela.
Sem mencionar a lembrança à hiper-iluminada Luma.

Tudo lindo!

Bj

Luciana Andrade disse...

Flor,
Que bom que encontraste um lar! Quero o novo endereço!
E que bom que você está onde realmente deveria! Sem dúvidas, o mundo ganharia uma grande pisicóloga, mas perderia uma grande escritora.
Saudade, bela!

Guydo Gomes disse...

Ola Flor....
Nossa amei seu texto....
Minha Caixinha de coisas "velhas" continua recebendo cada dia mais coisas, nao sei como dizer adeus a pequenas coisas q significaram tanto... é maravilhoso rever as nossas besteirinhas, nossos sonhos, nossos pensamento de antigamente....
trazem lembranças maravilhosas...
Xeiro Grande Continue com Deus
Sorte no novo Apçartamento

Inside Me disse...

lindaaa, num sei se vc gosta, mas te indiquei a um meme q recebi ,é interessante, fique à vontade pra responder [ou não] qualquer coisa dá uma olhadinha lá. bjocas

Carolina Mendes disse...

eee casa nova! Que bom que encontrou. Feliz por você!de verdade.
... sabe que essas ultimas semana ando tão contente com tantas noticias alegres sobre os amigos. Contente por você ter encontrado uma casa e por você estar onde está, sempre fazendo nossos olhos brilhar e a cabeça pensar com suas palavras doces.
Fica o meu muito obrigado por eu ter te encontrado.

grande beijo, querida.

Carol.

keila lima disse...

Vc falando em mudança fez eu perceber que eu nunca mudei, deve ser uma sensação incrivel fechar a porta de um apartamento vazio e abrir um novo, cheio de esperanças.... Boa sorte com a mudança!!


Beijos Flor!

Francisco Sobreira disse...

Pois é, querida Mônica, ao longo da vida a pessoa vai acumulando coisas que perdem a utilidade. E aí, começa a pô-las no lixo. Um beijo.

ELA disse...

Bom recomeço!

Adoro mudanças!

Há pouco tempo também mudei para um ap novo.

O mais interessante não é apenas o novo ambiente, é descobrir uma nova padaria preferida, uma nova mercearia de frutas, um novo vizinho bacana, de que lado o sol se põe, de que lado volta a nascer, se tem ventinho gostoso pela sala no verão e mais um infinidade de detalhezinhos que uma alma poética apercebida (como escritora, certamente tens a tua dose) costuma reunir.

Um abraço,
Michelle

Aninha Pontes disse...

Deliciosas lembranças.
Encontro com o passado, que nos faz viver um presente melhor e mais gostoso.
Guardar? melhor nas boas lembranças.
Entulhos? Podemos nos desvencilhar deles.
Beijo querida.

Mayana Carvalho disse...

Sou do tipo que guardo coisas, justamente pelo motivo de me lembrar quem eu sou e por tudo que passei. Quando as pego para olhar chego a conclusão que estou onde deveria.
Beijos

Mahzinha disse...

UAU, me emocionei de verdade, foi a primeira vez que me emocionei assim ao ler um blog.
Eu to precisando fazer isso, jogar 22 sacos de lixo cheios do meu quarto, mas e a coragem? Esse texto me deu um gás... quem sabe eu n comece isso amanhã?
E a parte do texto coisas que eu gosto, muito lindo... Você tem o texto todo? Queria ler ele todo (se não for abuso ou intromissão, fiquei com muita vontade). Gostos parecidos com os meus...
Eu sou muito sentimental...
E ainda tenho pastas com provas e textos da faculdade... Entra em contato comigo flor...
Ah, amei os sapatos que aparecem na foto.
Um beijo cheio de carinho, identificação e curiosidade :*

jefhcardoso disse...

Mônica Fina Flor, desculpe a curiosidade, mas qual curso você fez? Agora, vejo; foi psicologia, minha esposa/namorada Andréia também cursou Psico.
Caramba!, curso de Mitologia Grega deve ser bom demais. Agora poemas e cartas... poxa, isso não se rasga, moça. Posta tudo isso vai: o texto na aula, a foto do Ney no pinel e tal. (rindo muito). Desculpe. Posta vai.
Ah, sim. O texto. Gostei. Gosto de algumas dessas coisas, mas tenho aflição de chocolates na cama, isso faz lambreca. Seu bigode ficou legal. Você disse que é escritora, achei lindo. Você possui livro publicado?
Bem, se ficou meio estranho comentário é por que fui lendo e escrevendo conforme você notou.
Beijo do Jefhcardoso.
Mais uma coisa: não sou de pedir coisas, mas pra você eu quero pedir: você poderia opinar sobre o meu Bronson, digo; Um Dia de Fúria, apenas. Abraço!

Ana Luisa disse...

Ahh Mônica, ainda não encontrei um cantinho para chamar de meu, mas enquanto isso faço as faxinas e modifico onde estou.
Tb guardava, e na verdade ainda guardo, muitas coisas, algumas apenas na memória, mas com todo amor e muitos suspiros ao lembrar!!

Boa sorte!
Saudades daqui.

Grande beijo.

Branca disse...

Redescobrir o passado e encher o presente com tão boas lembranças...

Belo texto, de uma leveza única.

Bjo!

Du disse...

Mônica, na semana passada passei pela mesma situação, mudei inesperadamente de casa e junto com a mudança foram sacos e sacos de coisas fora...Coisas que eu jamais imaginaria jogar fora anos atrás, enfim... as mudanças mais importantes na nossa vida, acontecem de dentro pra fora.

Quanto a sua pergunta sobre o template do meu blog, encontrei aquele em estilo magazine no http://templatesparanovoblogger.blogspot.com/ Escolhi o template que mais combinava com a proposta do meu blog, fiz download e substituí pelo que lá estava. Parece complicado, mas é fácil.

Acho o seu blog muito bonito, viu? Eu não mudaria nada aqui, mas se precisar de ajuda, conte comigo.

Beijos

Su disse...

Tantas coisas que guardamos, tantas lembranças... E não há melhor sensação do que aquela de termos feito a escolha certa.

Lindo!

Bjosss!!!

Varal Das Artes disse...

Aihh q Gracinha de post. Adorei!!

E uma das coisas que compensam o transtorno da mudança de Ap, sem dúvida são essas deliciosas re-descobertas.

Bjs
Saudades
Ká Montone

Erica Maria disse...

Sabe que eu tb anotava nos cadernos do colégio, da faculdade?
Ah, é tão bom ter a certeza de que nascemos para o que somos. E derramamos ´palavras pq essa além de ser a nossa escolha, é nosso destino tb.

Bjos no teu coração Flor!

Erica Maria disse...

Sabe que eu tb anotava nos cadernos do colégio, da faculdade?
Ah, é tão bom ter a certeza de que nascemos para o que somos. E derramamos ´palavras pq essa além de ser a nossa escolha, é nosso destino tb.

Bjos no teu coração Flor!

Fred Neumann disse...

Dá uma preguiça, mas é muito bom jogar coisa inútil e cheia de poeira fora.
Esse gostinho de redescobrir coisas nos faz acelerar o enchimento dos sacos de lixo,né?

MM´s, eu tava sumido porque tenho estado meio off-blog, mas muito online.Lanço um portal sobre minha cidade Araxá dentro de uns 15 dias.

beijo-k´s,

Fred

Nilson Barcelli disse...

Você só podia ser escritora (vc já escrevia como adulta aos 18 anos), para além de mais algumas coisas que faz bem (cantar, por exemplo). Não sei se foi ou é modelo, mas também o poderia ser.
Em qualquer caso, a Mónica só poderia estar ligada às artes.
Querida amiga, um bom fim-de-semana.
Beijos.

Fred Matos disse...

Mônica,

Teu texto me lembrou de um poema meu que publiquei no Anomalias e deixo aqui com um beijo e o desejo de que tenhas um ótimo domingo:


nos guardados da casa
arqueologia miúda
de um passado recente.

cartas,
velhos cadernos pejados de poemas,
sonhos,
projetos.
uma pétala seca de rosa,
talvez,
ou de açucena.

uma declaração de amor eterno
infinitamente mais breve
que o papel que a promessa encerra.

assina Lúcia,
de cuja feição não me lembro,
sequer das circunstâncias da paixão
que a carta testemunha.

documentos,
traças,
pó de papel,
mofo...

de que me serve guardar
a Certidão de Óbito do meu pai?

centenas de fotos esbranquiçadas
o texto juvenil de uma comédia
que nunca será encenada.

nem tudo vai para o lixo sem lágrimas,
mas é preciso esvaziar os armários,
atulhados de ontens,
para dar espaço ao novo.

Vieira Calado disse...

Quando, ao fim de 5 anos

verificamos que não utilizámos seja o que for

é para deitar fora.

Já nunca mais irá servir para nada!

Bom fim de semana.

Bjs

Cintia Liana disse...

Que delícia de texto, amiga! Tbm adoro me reciclar. rsrs Arrumar, jogar fora, organizar, pensar. Bjs.

Valéria de Oliveira disse...

Linda, linda e sempre linda. Sem dúvidas acredito que fazemos tão bem aquilo que nascemos para fazer e se o universo tomasse um rumo natural e despertasse para isto seriamos muito felizes...

bju

Daniel Savio disse...

Achei engraçado te ler, pois eu sou mais de juntar tralha do que qualquer coisa...

Fique com Deus, menina Mônica Montone.
Um abraço.

Isabela Pinheiro disse...

Caramba!! como me identifiquei com esta postagem (risos).. Estou exatamente com 19 anos , fazendo curso de psicologia, me aproximando cada vez mais das palavras (me encantam profundamente e dizem muito dos meus sonhos de infância)e semna passada acabei de escrever uma postagem sobre coisas que eu gosto com uma estrutura bem aproximada... rsrsrsr... cara não me aguentei de rir...
Resumindo amei suas palavras elas cativam o leitor...
Abraços

Fanzine Episódio Cultural disse...

GOSTARIA DE DIVULGAR SEUS POEMAS, ARTIGOS, CONTOS, BIOGRAFIAS, ETC, NO MEU FANZINE EPISÓDIO CULTURAL (Edição impessa)?

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