domingo, 6 de junho de 2010

. A fábula do caminho do meio .



foto: brigitte bardot


Sempre que tento andar pelo caminho do meio acabo me perdendo no meio do caminho.

Me perco porque acho que estou no caminho errado e saio em busca de atalhos, sem saber que, certas fomes, certos dramas, certos enredos, certas tramas não tem saída: é matar ou morrer e depois, renascer.

Não, não sou extremista. A vida, às vezes, é que me parece pedir atitudes extremas. Não há escolhas sem perdas, nem caminhos sem pedras.

Querer andar no caminho do meio sem ser hindu, chinesa ou japonesa é o mesmo que vestir um quimono sem ser gueixa: a seda pode até se acomodar sobre a pele, mas a sede no olhar denuncia faltas ancestrais.

Se não tenho olhos de águia para contemplar o outro lado da montanha, por que deveria forçar meus olhos de menina na amplidão? Se não tenho olhos de coruja por que deveria forjar uma sabedoria que ainda não alcancei?

Simplesmente por que é mais bonito? Mais sensato? Mais equilibrado? Mais sábio? Mais maduro? Simplesmente por que é o que esperam de nós?

Não saber andar no caminho do meio me gera uma vergonha insana. Uma vergonha que me chicoteia e me tira a paz tanto quanto meus dramas de menina-moça.

E se eu quiser achar que o caminho do meio é o caminho da mediocridade? Da mornice? Da mesmice? Do tédio? Da acomodação?

Por que a virtude está no meio? Quem inventou essa fábula?

Não seria essa fábula um mero sistema de controle? Onde se pretende amordaçar, aquietar e amansar almas que não se contentam com a superficialidade do conforto?

Picasso, Van Gogh, Baudelaire, Drummond, Beethoven, Lispector, Pessoa, Bukowski, Dylan, Maiakovski teriam feito suas grandes obras se estivessem no caminho do meio? Ou as fizeram exatamente por que estavam em busca dele?

Não sei. Sei que me aflige essa história de que devo andar no caminho do meio e que me queima essa sensação de inadequação quando percebo que meus passos são largos demais para caberem nesse pliê.

Bem na verdade me preocupam e causam mais comoção as pontes e a paisagem do que o caminho em si.

Assim vou sendo... E estando no mundo...


By Mônica Montone


F.a.l.a.n.d.o n.i.s.s.o o escritor Mario Sergio Cortella, em seu livro 'Não espere pelo Epitáfio... Provocações Filosóficas' [que pretendo ler!] disse:


Nesse sentido, para não ser morno, é preciso ser radical. Cuidado! Em nosso vocabulário usual é feita uma oportunista confusão entre radical e sectário. Radical é aquele – como lembra a origem etimológica – que se firma nas raízes, isto é, que não tem convicções superficiais, meramente epidérmicas; radical é alguém que procura solidez nas posturas e decisões tomadas, não repousando na indefinição dissimulada e nas certezas medíocres. Por sua vez, o sectário é o que é parcial, intransigente, faccioso, ou seja, aquele que não é capaz de romper com seus próprios contornos e dirigir o olhar para outras possibilidades.

É preciso ter limites, mas, estará o limite exatamente no meio? Não é necessário ir até os extremos, mas é essencial não ficar restrito ao confortável e letárgico centro; muitas vezes o meio pode ficar anódino, inodoro, insípido e incolor


Obrigada querido Gilmar por me enviar a crônica do Mario Sergio Cortella, que de certa forma me inspirou a escrever o texto acima.


C.o.n.v.i.t.i.n.h.o



Na próxima sexta-feira, 11 de junho, vou fazer um show com a minha banda no Teatro Municipal Café Pequeno, às 21h. Trata-se de um teatro charmosérrimo no Leblon. Venham!



Para ouvir faixas do meu disco, aqui

Para twittar, aqui

Para conhecer melhor, aqui


[ Obrigada aves raras, pelos pousos ]



by Mônica Montone

21 comentários:

Cláudio B. Carlos (CC) disse...

Belo texto.


Beijos,

CC

ELA disse...

O Gilmar publica tanta coisa de qualidade, é impressionante! Sorte nossa que ainda é de graça (rs!), já falei isso pra ele.

O "caminho do meio" é relativo. Cada um funciona a uma velocidade, é quase impossível que a "velocidade média" de um equivalha a do outro.

Vai ver é por isso que, muitas vezes, os conselhos de fora são inúteis.

Não tem sentido a orientação, mesmo que amável, de "acelerar" se o normal foi fazer isso a vida inteira. Para estes, melhor seria arrefecer. E assim vai...

Um abraço,
Michelle

mag disse...

Eu acho q o caminho do meio é aquele no qual nos sentimos bem.

clauky boom disse...

meus passos também são largos demais para o pliè, bela. acredito que o caminho do meio seja um ponto de referência, no qual podemos transitar entre curvas e até derrapadas. a sensação que me dá um caminho do meio é o porto seguro... mas como diria o amigo Jozé Calazans (poeta contemporâneo): 'a vida é mais bela à beira do abismo'

baccio

Anônimo disse...

Mônica,


trata-se do melhor texto seu que já li.É provocativo,ardoroso e reflexivo.Ele traz consigo uma confissão ambígua de nossa ''simplicidade''.Fala direto ao leitor através de um espelho partido de dúvidas,as sempre saudáveis dúvidas .

É evidente o progresso do seu texto,parabéns!

Um beijo

André Nóbrega.

Nanda disse...

Sou dupla libriana (signo e ascendente); então vivo buscando o equilíbrio; ou o caminho do meio. Nem sempre dá certo, tanto que minha mãe diz que sou uma 'balança quebrada'...rs - Mas cada um, cada um; vamos é aproveitar os caminhos.

On The Rocks disse...

pra pensar... ficar no caminho do meio às vezes pode ser bom pra analisar os extremos e não esquecer da retaguarda...

pensando... - rs

bj

christiana disse...

Oi, Flor. Compreendo bem sua angústia, em que também me vejo todo dia, de escolher caminhos dentre tantos descaminhos.
Mas qto ao caminho do meio, querida, o que posso dizer, do alto de minha ignorância agravada por mais de 20 anos de estudo de i ching, zen e outras taoíces, é que o caminho do meio nada tem de mediano e passa muitas vezes pelos extremos. O tao (caminho ou fluxo) do meio (do coração, do self) é quase sempre o mais difícil, muitas vezes solitário, mas também é o único que vale a pena. E infelizmente (ou felizmente, na verdade) ele não está escrito em lugar nenhum. Se disserem a você que está, isso sim é fábula.
O tao te king diz mais ou menos assim:"o que pode ser dito não é o tao"
Tem uma tradução interessante do Tao disponível aqui. É um texto muito poético, simples e profundo, recomendo aos caminhantes:
http://www.hottopos.com/tao/dao_de_jing01.htm

Beijos, boa semana.

Luciana Andrade disse...

Entendo, concordo e sou ré confessa.

Gilmar disse...

Oi Mônica!

O texto do Cortella lhe inspirou mesmo! A sua reflexão é ponto de partida para tantas mais.

Quando escrevi o texto "A Mediocridade do Meio" fechava dois assuntos tratados em outros textos: "Mania de Pressa", onde discutia a questão do nosso ritmo frenético e "Sapo Escaldado", onde refletia sobre nossa intolerância às mudanças graduais e o quão inertes ficamos ante as necessárias desacomodações.
Em relação ao "meio", ou aos transbordamentos propostos, confesso-lhe que, por sermos seres tão imperfeitamente diferentes, tenho medo de verdades absolutas. Cada um tem o seu ritmo que dita as escolhas. A grande questão, e que merece outras reflexões, é na verdade a dor de perder a si mesmo.
Grande beijo!

keila lima disse...

Caminhos não são faceis de identificar, por isso eu gosto de placas "Rio de Janeiro X Km" "Rio das Ostras =>" Assim a gente sempre pega o caminho certo, seja da direita da esquerda e o do meio. Ser desbravador é adjetivos dos valentes e pacientes e eu sem duvida não sou uma dessas!!

Boa sorte com os caminhos e bons voos!!

tracosdenanquim disse...

Um dia ... se Deus permiti vou na sua cidade e te vejo cantando...
Adorei a cronica...

acho que estou parada no meio do caminho! =D

Guydo Gomes disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Carolina Lauriano disse...

Muito bom o seu texto, MÔNICA. E, pessoalmente, acredito que diante de um mundo que constrói tantos e tantos rótulos que lhe é possivel criar, é difícil não querer estar no caminho do meio. O caminho do meio me pareceu ser mais original,nem uma coisa nem outra. Como o texto de Cortella diz, o perigso dessa "neutricidade" é se tornar enfadonho, um não destino, um quase vazio.

Primeira Pessoa disse...

tudo tão bonito aqui, mônica... tudo limpo, transparente... prifundo e latente.

voltarei.

grande abraço do
roberto.

O Árabe disse...

Boas perguntas, Mônica! Talvez no meio nada exista, senão um morno esquecimento. :) Boa semana!

Donaella disse...

"Seja quente ou seja frio, se for morno eu te vomito."
Esse post assim como sua foto estão belíssimos!
beijos carinhosos

. fina flor . disse...

Chris, querida, certamente o conceito de 'caminho do meio' é diferente nas práticas orientais e independentemente do conceito é difícil de achar, não existe placa, rs*

Na prática, o que vejo, são pessoas se acomodando e jurando que estão, na verdade, sendo sensatas [palavra que virou sinonimo de 'caminho do meio', rs*].

Na verdade, penso que tanto eu quanto o Cortella não estavamos nos referindo ao conceito de meio como plexo do coração... da minha parte, por ignorância no assunto, da dele, não sei, rs*

Depois vou passar lá com calma para ver a tradução, obrigada pela dica.

beijoca

MM.

. fina flor . disse...

RAROS TODOS

lendo os comentários percebi que não estou sozinha nesse caminho de não achar o caminho do meio.

seja como for, amados, o importante é caminhar... sempre!

Beijocas e obrigada pelos pousos

MM.

Valéria de Oliveira disse...

Falar do caminho do meio pode ser algo fácil, agora: Praticar o caminho do meio é o complicado. Seguindo a linha de raciocinio da psicologia podemos tentar, mas não somos explendidos para o excesso de equilibrio. Desviamos nossos passos, passamos entre flores e espinhos e isto nos faz. Criamos histórias através disto...

Sempre tudo belíssimo por aqui...

Beijooooo

Daniel Savio disse...

Acho que as pessoas são de fases, hora mais obscuras, hor mais claras, mas sempre tendo sentimentos, não é?

Fique com Deus, menina Mônica Montone.
Um abraço.

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