foto: googleNão é exatamente o olhar do outro que nos constitui. Trata-se de uma troca.
Você se imagina e se vê - ou se sente - como X. Transmite essa idéia para o outro através de seus comportamentos e esse outro a devolve como um espelho e, com essa devolução, você vai moldando sua ‘identidade’.
Trata-se de um processo dialético, onde o produto final é sempre modificado pelo todo. Ou seja, sua identidade [o produto final] jamais será igual a idéia que você transmitiu, e o espelho jamais devolverá essa idéia de maneira genuína. Esse produto final sofrerá mutações, como numa brincadeira de telefone sem fio.
Para complicar um pouquinho ainda mais esse jogo, entram as mensagens que passamos e sequer percebemos ou conhecemos, pois estão em nosso inconsciente.
Como passamos? Através da maneira como nos colocamos frente às situações, geralmente através de nossas defesas e disfarces que encobrem nossas inseguranças.
Você pode morrer de dizer, por exemplo, para si mesmo e para o mundo, que acredita que é um bom padeiro, que acredita no seu talento, mas, se no dia a dia da padaria você se comporta sempre na defensiva, achando que o menino do balcão é invejoso e que seu assistente está querendo te sabotar, se não assume os próprios erros quando a massa desanda, se acha que a atendente do caixa gostaria de estar no seu lugar e por isso não facilita as coisas para você, nem respeita as regras da padaria em que trabalha, o espelho [o olhar do outro] não vai te devolver uma imagem ‘de potencial e talento’ e sim de alguém que não sabe trabalhar, porque uma ação vale mais do que mil palavras nesse caso.
E recebendo essa mensagem ‘de que você não sabe trabalhar’ o que pode acontecer? Em geral você acreditar nisso e ficar inseguro e acabar se auto-sabotando e/ou sentir raiva e atacar quem devolveu uma imagem tão diferente da que você enxerga.
Claro que estou me referindo a ‘um outro relevante’ e não ao jornaleiro que sequer conhecemos.
Trocando em miúdos, no país do futebol e da bunda, poderia dizer que: não basta ter bunda boa, tem que saber rebolar!
A maneira como os outros nos vêem - e conseqüentemente nos tratam – geralmente tem, sim, algum fundamento, pois nós contribuímos de alguma forma para que eles nos percebessem de tal forma.
Não se trata do outro estar certo ou errado. Trata-se de um processo dialético mais antigo que a história da carochinha que foi muito bem destrinchado por Freud.
Então, antes de atacar o outro porque ele não te vê como você gostaria e como você se vê, antes de sentir raiva do outro porque ele não te trata com o respeito que você acredita merecer e, antes que você ache que o outro é um idiota, boçal e invejoso que não te olha com o status que você acredita merecer, tente refletir de que forma [?], como [?], o seu comportamento ajudou esse outro a construir essa ‘idéia de quem é você’.
No mínimo vai ser um exercício enriquecedor de auto-conhecimento!
Lembrando que: respeito não se impõe, se conquista. E se conquista através das ações, ações, estas, que geram merecimento.
by Mônica Montone
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by Mônica Montone






























28 comentários:
Adoro as coincidências. Engraçado que estava relendo uns textos da minha especialização e uns q escrevi que tratavam de alguns temas parecidos, como este que escreveu. E achei bacana e pertinente trazer algumas reflexões aqui...do tipo: Heterônomos ou Autônomos?
Para Freud, lá onde o indivíduo não pensa, ele escolhe, e onde costuma pensar ele é sobredeterminado.
E nesse sentido que se compreende a diferença que Eugene Enriqués e Castoridis(dois teóricos) fazem entre os indivíduos heterônomos dos autônomos. Os heterônomos são aqueles que apenas reproduzem o caminho traçado, que recompõem uma época histórica como “indivíduos necessários” mas os autônomos são “essenciais”, são aqueles que compreendem que podem se descolar e originalizar suas histórias pessoais. Tem seus projetos, mas não temem pegar caminhos alternativos por saberem que essa alternativa poderá lhes permitir uma vivência mais profunda e o encontro com outros sujeitos e pessoas diferenciadas. Não se contentam em ser produzido querem ser produtores de si mesmos, portadores de suas historicidades, pois são capazes de dar sentido e significado às suas vidas. Esta é uma especificidade da natureza humana, a possibilidade que cada pessoa tem de atuar sobre si mesmo, de realizar um trabalho sobre si, de auto construir-se em personalidade. A história para Heidegger não quer dizer o passado, no sentido do que transcorreu, mas do que virá. É o fato de se ter uma história que permite fazer história e há história porque os homens estão juntos não como subjetividades moleculares fechadas que se somam senão porque podem se projetar até um outro com a sua verdade. (Lyotard).
Abraços querida! Adoro seus textos!!
Sempre fico me torturando em relação a como os outros me veem. E é impossível ser o que os outros querem que nós sejamos. Enfim, o jeito é sermos nossa melhor versão, se pintar para o mundo e não esperar dele muitos elogios. Pode parecer uma visão pessimista, mas cheguei a conclusão que cansa muito se preocupar em olhar para o "espelho" o tempo todo. Mas, sem dúvida, antes de se cansar, é necessário e preciso ter estado diante dele muitas e muitas vezes
É isso aí, querida Mônica. Um beijo e uma excelente semana.
a forma de ver e olhar é um código de palavras não ditas mas sentidas na forma como nos vemos e nos vêem.
...também se pode tratar de um caso de cultura/educação.
"Ver" melhor as diferenças nos outros do que as semelhanças. Louvar até aquele que se apresente como ser realmente diferente/ único.
um caso de prática genuína da alteridade.
Tudo uma questão de escolha entre os dois "EUS": o supéfluo e o profundo.
xaxuaxo
Mônica, depois do último Acordo Ortográfico passou a ser recomendando a grafia de "auto-conhecimento" juntinha assim "autoconhecimento". É que sempre uso essa palavra e depois de tantas consultas, bem... Tudo isso é uma chatisse, não é? Não quero ser chata, isso foi só uma maneira de concordar com você: o exercício do autoconhecimento é sempre conveniente. Gosto disso que você escreveu, um texto que "aponta o dedo" e pede "faça você a sua reflexão". Porque fica inferido que quem escreveu fez sua própria, o simples ato de discorrer sobre o tema com a publicação de um texto, marca isso.
Bundas e futebol, assuntos do mês... Só do mês? Não, aqui no Brasil não...rs
Bjs,
Michelle
Todos nós temos uma maneira diferente de olhar. Quase sempre à primeira vista temos uma impressão diferente do que realmente se é. É deixar a vida dizer e o respeito e o merecimento se constroém!
bjos!
Assim é, Mônica, Creio que os outros são como espelhos, a refletir as imagens que lhes passamos. :) Muito bem dito, boa semana!
Mônica querida, adoro essas tuas reflexões, fazem sempre muito sentido. Eu vi tanta gente enquanto lia tuas palavras, sério. Concordo em tudo, você é o que você quer ser, simples assim. E se a gente vive (também) para os outros, a nossa imagem tem que fazer jus a nossa identidade, o carimbo que vamos deixar até o dia da nossa morte.
Beijão
Passando pra desejar td de bom neste dia chuvoso aki...
Xeiro Grande Continue com Deus
Michelli, meu doce
escolhi ignorar por completo a reforma ortográfica, me nego a escrever idéia sem acento e estréia sem acento, rs*.... também amo os hífens, rs*..... deixarei esse trabalho para os editores/redatores, rs*
mas obrigada pelo carinho de alertar.
beijoca
MM.
Gosto da idéia de sermos os dois, Manu, heterônomos dos autônomos, rs*.....
Daí, talvez, a idéia de brincar com o princesa Franciny.
beijocas e obrigada pelo rico comentário.
MM.
sorte a minha que meu sofrimento é passageiro e que a dor só assola minha poesia.
obrigada pela sua visita, também.
A linguagem corporal quase nunca mente o que tentamos esconder. Pra isso é preciso muito esforço, que muita gente é adepta e que por isso sempre leva umas chineladas na cara. E por mim, tem é que levar mesmo. O obscuro é a desculpa perfeita para as atitudes mais acertadas... com ou sem respeito.
até mais.
Jota Cê
Monica... dizer que amei esse "lugar", parece pouco para você...? Por hora é só o que eu tenho a dizer.
Parabéns!
Dizer mais o quê? Foi perfeita a sua análise! Sem mais!! :=))) Beijus,
Mônica, eu de novo...rs
Olha, você é sinônimo de gentileza e simpatia, obrigada pelo carinho! ;)
Aliás, também percebemos isso por este seu texto aí.
Ignore o Acordo Ortográfico com todos os direitos que lhe cabem mesmo! Os artistas podem e d.e.v.e.m (rs!) usar suas "licenças poéticas" (ai, que inveja!).
E desculpe a pobreza do meu comentário, mas sou da área de comunicação, daí vem a bitolação pelo AO (que eu TIVE que engolir... ou então ele me engolia! rs)
Bjs para você!
Michelle
(escreva mesmo um texto "metendo o pau" no novo AO, mas sem descer do salto, que é mesmo como você costuma fazer! Aguardo!)
Oi Monica!
A Luma retuitou e eu tô aqui até agora, pensando, refletindo sobre teu texto...
com calma volto praconhecer mais teu trabalho,
beijão
Flor, uma ótima reflexão!!
Sempre é bom passar por aqui!!
:)
Somos, um pouco, feitos do olhar do outro. E respeito é tudo que não se pode impor.
oieeeeeeeeeee, dizem q nenhum espelho reflete melhor a imagem da gente do que nossas palavras... vai saber né... bjs
Ain reflexão... Não estou humilde o bastante pra confessar que não estou sendo um bom espelho pra mim. Ou será que o outro é que não aceita o que reflito ?!! Ain dúvidas e questões... E a "vida é feita do corriqueiro!!!!
Adorei ti ler moçaaa, e eu queria ir taaaaaaaaaaaaaaaantoo nessa café que vc irá se apresentar... Adorei tua visita!!!!!!!!!!!!!!!!
Beijos e bom show!!!
Oi Monica,
A Luma me sugeriu ler esse texto e eu vim. Adorei. Ate por que eu tenho a padaria, literalmente. E me sinto impotente diante dela. Nao é uma estrutura que eu tenha criado e nem que eu consiga dominar. Nao dou para o comercio e descobrir isso foi um ato de humildade bom para minha consciencia. Assim como nao sei sambar e nem matematica..
Quanto ao olhar do outro,penso que ele nos constitui como um EU sim. Um bebê que não é "visto" como alguém por sua mae, seu cuidador enfim, nao é um niguem, é um monte de existencia sem consistencia que leva a morte. Como o olhar do outro é importante nessa fase. Em todas as outras, como voce falou, funciona como um espelho, no processo analitico, o é mesmo, todo o tempo, o espelho onde o paciente vai se mirar. E na vida em geral é tb como voce disse, recebemos de volta o que damos e assim constituimos um parametro de nos mesmos. Claro que ha meios, familias tao neuroticas, que passam para seus filhos "olhares" que determinam posiçoes nem sempre verdadeiras, mas fruto daquela teia familiar.
Enfim tema bem interessante. Adorei mesmo o lance da padaria...
Beijos da Cam
Caiu como uma luva para mim... Preciso refletir sobre isto. Tem sentido... Acredito nestes reflexos....
Beijo
É uma imagem retroalimentada, o que damos acaba sendo o que somos, consciente, ou não...
Fiquem com Deus, menin Mônica Montone.
Um abraço.
Ola Monica,
Li um comentario da Luma agora numa postagem antiga( as vezes entro para ler meu proprio texto quando alguem entrou pela busca do google). Ela indicavva seu texto para eu ler. Eu nao me lembrava desse comentario dela, entrei no seu texto, li como se estivesse lendo pela primeira vez e me preparava para escrever um comentario bem semelhante ao... que eu ja tinha escrito por que ja tinha lido o texto e o comentario da Luma. Nao me lembrava de nada. Sei que estou com um problema de memoria,mas acabo de ficar seriamente preocupara comigo.
Beijos,
Cam
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